O prazer de descascar mais e o muro da casa da minha avó
- Paula Teixeira
- 3 de ago. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 3 de ago. de 2021
Eu cresci num quarto e sala que ficava nos fundos da casa dos meus avós. A casa dos meus avós tinha um terraço lateral que ficava na frente da sala e que fazia com que um corredor se formasse entre o terraço e a casa do vizinho. Esse muro começava no portão e percorria todo o terreno da casa.
A vantagem de morar em uma casa pequena é que você se acostuma estar no quintal. Eu cresci inventando brigas e brincadeiras com os primos, cachorros, tias e com a minha irmã.
Quando pequena esse muro para mim parecia enorme. A pintura do muro era descascada e cheia de rachaduras.
Eu sempre fui uma criança que os adultos definiam como geniosa. O que na verdade queria dizer que eu deixava os limites claros do que eu queria e não queria. E também gostava de transgredir as regras que me eram impostas quando eu pensava que elas não tinham sentido.
Esse gênio as vezes me fazia estar mais solitária pois não aceitava qualquer tipo de brincadeira com os primos e as vezes arranjava confusão e ficava brava.
O grande muro e sua parede descascada era um amigo nesses dias.
Eu gostava de seguir com o dedo as linhas formadas pelas rachaduras do muro. Imaginava como essas linhas haviam surgido. Imaginava como as rachaduras eram parecidas com os rios dos mapas da escola. Imaginava também que as linhas eram o limite entre as duas tribos de formigas do quintal que haviam cavado aquela rachadura para delimitar seus territórios.
Eu gostava de descascar a pintura do muro e me lembro que isso me ajudar a me acalmar e cuidar de mim enquanto estava brava. As camadas de tintas me faziam pensar nas cores que aquele muro já teve. Eu gostava de imaginar todas as vezes que o muro havia sido pintado. O muro Tinha uma camada rosa, uma camada azul e a camada de cima que era bege. Eu Imaginava que talvez as camadas de tinta coloridas foram escolhidas porque minha mãe e tias eram crianças. E que o muro hoje estava pintado de bege, que era cor de adultos, porque elas haviam crescido.
Eu imaginava como foi o dia que meu avô construiu o muro. Imaginava minhas tias fazendo aniversário. Conhecendo os namorados e depois maridos. Depois saia por aí perguntando aos adultos sobre todas as histórias.
Hoje lembrando como eu gostava de descascar esse muro. De quanto tempo passei com esse muro. Descascando laranja com meu avô, sentado na frente do muro, no degrau do terraço, me vem a mente que talvez nasceu daí o gosto pela fala que sempre uso com meus pacientes que “eles precisam descascar mais e desembalar menos”. Atualmente eu falo isso em relação aos alimentos, mas talvez passe a dizer também que eles podem começar a descascar mais os muros de suas histórias para se acalmar e imaginar histórias que os aquecem e fazem sorrir. E que percorrer as rachaduras de suas histórias pode os ajudar a descobrir mais sobre os limites que essas rachaduras ajudaram a traçar.
Termino hoje aspirando que a gente possa retomar o prazer de descascar laranjas e maçãs e cenouras e cebolas. E quem sabe esse prazer se estenda e a gente perca o medo de investigar também as nossas camadas coloridas que foram adicionadas ao longo do muro que percorre toda a nossa história, desde o portão até o fim.
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